De há uns meses para cá, as palavras do David Heinemeier Hanson (um dos sócios da 37signals, que desenvolveu o Basecamp, entre outros) fazem-me cada vez mais sentido. Há um ano, David escrevia o seguinte:
I’ve been approached by a great many entrepreneurs since the Startup School talk who all tell a similar story. They found a niche, made a product for it, and then thought “what the hell, let’s do something crazy!” and decided to charge money for it. To their surprise, it worked and they’re paying the bills and growing.
While that’s fantastic, it’s also perverse. There shouldn’t be any element of surprise unveiled from that order of actions. It should come as a natural conclusion, but it doesn’t. Because the startup culture has caught this disease that there’s something unnatural in being profitable from the get-go. That making money early means you won’t make it big later.
Mais recentemente, o David foi convidado do Jason Calacanis no seu excelente This Week in Startups, numa entrevista que recomendo vivamente e em que a certa altura, David diz:
The only thing that matters in the end, is profit. Market share doesn’t matter. It matters if it leads to profits, otherwise it doesn’t matter.
De facto, esta ideia de que o software pode vir a ser todo gratuito, alimentada por gigantes com “bolsos fundos” como o google ou a ibm, parece fazer feliz muitos consumidores, mas a mim não me convence. Antes pelo contrário, tenho dado por mim a recusar-me a instalar ou utilizar software gratuito cujo modelo de negócio não consigo entender.
Inconscientemente, comecei a pensar nisto no momento em que comprei, de facto, a minha primeira aplicação. Já lá vão alguns anos, e tirando o Windows e o Office (licenças pagas pela empresa), o meu computador estava recheadinho de freeware, shareware e outros ware’s, resultado de longas pesquisas em sites como o freshmeat.net, tucows.com (lembram-se?) ou o download.com. Mas havia um “vírus” no meio daquela tralha toda. Era um editor inteligente (IDE) de uns cromos da república checa chamado Intellij e que era….surpresa…pago! Havia alternativas gratuitas claro mas, por diversas razões, acabei por cometer a loucura de pagar por aquela aplicação. Isto foi há quase 10 anos.
E sabem o que é irónico? Das dezenas de aplicações que eu utilizava, o Intellij é a única aplicação que ainda hoje utilizo. Pois é. As outras já nem me lembro do nome. Porque o meu dinheiro, e o de muitos outros clientes, pagou aos programadores pelo seu trabalho extraordinário, pelas evoluções (e revoluções) sucessivas de umas versões para as outras, pelo suporte imaculado, nunca deixei de utilizar o Intellij.
Isto não quer dizer que não tenha software instalado pelo qual não precisei de pagar. A diferença é que, agora, eu tento primeiro perceber o modelo de negócio que permite suportar essa gratuitidade. Se conseguir, utilizo. Se não conseguir, não utilizo. Por exemplo, utilizo o evernote gratuitamente porque ainda não atingi nenhuma vez o limite de 40 Mb de upload. Mas estou certo que muitos utilizadores já atingiram, pagando $5/mês e suportando, dessa forma, a evolução da aplicação. Outro exemplo é o dropbox – não tenho mais do que 2 Gb na minha dropbox folder, por isso não preciso de pagar. Mas é óbvio que há muita gente a dispender $10/mês para ter 50 Gb de armazenamento, e isso paga futuros desenvolvimentos dessa extraordinária aplicação (eu próprio já ponderei passar para esse plano, acho que é uma questão de tempo…).
Estarão vocês a pensar: mas que raio me interessa o modelo de negócio, se o software fôr útil e satisfizer as minhas necessidades? Bem, umas das razões já referi por alto mas volto a repetir:
O modelo de negócio é aquilo que garante futuras evoluções do software. Porque, por muito que o programador adore aquilo que faz, ele tem que comer, tem que pagar a casa, (mais cedo ou mais tarde) o infantário dos miúdos, etc. O Maslow percebeu isto há muito tempo – primeiro tenho que satisfazer as minhas necessidades básicas, como comer e dormir. O gozo de desenvolver software gratuitamente (por exemplo, em regime open-source) só existe depois de satisfeitas as necessidades básicas. Note-se que existe imenso software open-source com modelos de negócio viáveis, recorrendo por exemplo a serviços pagos à volta do produto como suporte, customização e formação.
Mesmo esquecendo a questão de suportar a evolução do software, temos outras coisas a perder se utilizarmos software sem modelo de negócio a suportá-lo. Por exemplo, existe um risco mais elevado do software ser descontinuado, e teremos que transferir os nossos dados para outra aplicação. E teremos que aprender uma nova aplicação.
Além disso, a verdade é que a melhor aplicação num certo mercado coincide, na maioria das vezes, pelo modelo de negócio mais claro. E a vida fica tão mais simples para todos (consumidores, produtores) quando há um modelo de negócio claro. É só criar uma página chamada “pricing”. Ou, pelo menos, na FAQ, responder frontalmente à questão: “Como é que ganhamos dinheiro?”. Simples, não é?
