O equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional

Custa-me muito ver como algumas pessoas próximas travam todos os dias uma batalha entre a vida profissional e a vida pessoal. Custa-me ainda mais que a vida profissional seja normalmente quem ganha a batalha…no curto prazo, pelo menos. Será certamente um reflexo dos tempos  de competitividade permanente em que vivemos. Porque hoje em dia os workaholics são os heróis. Por trás dos grandes líderes, das grandes empresas, há sempre uma história do tipo “trabalhámos dia e noite, sem fins de semana nem férias, para chegarmos onde estamos hoje”.

Isto não me faz sentido. Mesmo os mais capitalistas admitirão que a (desejável) competição entre empresas favorece o consumidor, ou seja, contribui para uma melhoria da qualidade de vida. Mas, estranhamente, essa obsessão pela satisfação do consumidor raramente deriva de uma obsessão pela satisfação própria. O que não deixa de ser irónico. Isto faz-me lembrar aquele ditado popular: “Para fazeres os outros felizes, sê tu primeiro feliz”. Quando olho à minha volta, vejo empresas com empregados infelizes a tentarem tornar os seus clientes felizes.

As pessoas que colocam a vida profissional à frente da vida pessoal são muitas vezes consideradas as mais produtivas e premiadas nas empresas, mas a mim não me convencem. Estou certo que existirão excepções, mas a verdade é que essas pessoas acabam por causar mais problemas no longo prazo:

  • Podem desmotivar toda uma equipa ao trabalharem frequentemente noite adentro – ou os restantes membros ficam igualmente noite adentro por solidariedade e lixam também eles a sua vida pessoal, ou vão para casa sentindo-se mal por o seu colega de equipa ter ficado a trabalhar;
  • São uma panela de pressão permanente, que pode rebentar a qualquer momento, sem aviso prévio. Um dia atingem o limite e, de repente, têm um esgotamento nervoso ou “passam-se da marmita” e abandonam o projecto;
  • Como só vêem trabalho à frente, têm uma visão afunilada da realidade. Do ponto de vista estratégico, essa visão pode ser catastrófica para os projectos;
  • A sua reduzida vida familiar/social limita-lhes a capacidade de tacto e empatia no relacionamento com os colegas.

Infelizmente, as pessoas que prezam a vida pessoal também têm um problema. Acham sempre que a vida pessoal é difícil de compatibilizar com a vida profissional por culpa dos outros. Dizem que a culpa é da empresa, que explora os seus empregados até ao limite. Ou então dizem que a culpa é do mercado concorrencial, que esmifra as empresas e não lhes dá outra hipótese senão esmifrar os seus empregados. E resignam-se com a situação porque acham que está fora do seu alcance mudar isso.

E têm razão. O mercado é realmente lixado. Muitos patrões até gostariam de deixar os seus empregados sair mais cedo ou ter mais dias de férias. Vá, muitos também não. Mas alguns, certamente. Só que eles não podem, porque senão a empresa deixa de ser competitiva e vai à falência e aí podem todos ir de férias muito tempo. É preciso ter consciência disto. E sentido de responsabilidade. Mas isto não implica que nos resignemos.

Pessoalmente, sempre prezei bastante a minha vida pessoal. Sou apaixonado pelo minha profissão mas não é só a minha profissão que me apaixona. No entanto, reconheço que tive muitas dificuldades em equilibrar as minhas paixões. Não sei se acontece isto noutras áreas, mas a informática consegue ser extremamente absorvente. Damos por nós a fazer noitadas em projectos que não vão a lado nenhum. As estimativas saem quase sempre furadas mas os prazos têm que se cumprir. Há uma jiga-joga permanente entre a capacidade de resistência dos programadores e as expectativas dos clientes. Não é uma empresa que faz isto, é todo um mercado. Mas, felizmente, tenho vindo  a conseguir esse equilíbrio. Não me resignei.

Como?

Recentemente, Ben Huh, o fundador do famoso http://icanhascheezburger.com/, disse numa conferência que queria que a sua empresa duplicasse a facturação no próximo ano. Perguntaram-lhe se teria que duplicar o número de empregados, ao que ele respondeu:

Não. Basta-me duplicar a eficiência dos empregados que já tenho.

É exactamente isto que eu tenho feito – (tentar) duplicar a minha eficiência. Estar sempre a magicar formas mais inteligentes de resolver os problemas. Aumentar o valor/hora, em linguagem de consultor. E (agora vem a parte realmente surpreendente) manter a minha produtividade média. Ou seja, trabalhar cada vez menos horas mantendo a produtividade média constante. Dito ainda de outra forma, entregar aquilo que sempre entreguei…mas com menos esforço. Dito assim, pode parecer fácil, mas exige que dediquemos o dobro da atenção a todas as nossas tarefas, num esforço impiedoso de optimização. Implica que nos especializemos, o que é um contrasenso na maioria das carreiras nesta área. Implica que transformemos as mais monótonas e lineares tarefas (o chamado “encher chouriço”) em actividades de investigação. Implica nunca aceitar, questionar sempre. Implica nunca estar satisfeito. Implica nunca estar confortável.

Talvez vos tenha desiludido. Talvez isto seja óbvio para vocês e esperassem algo mais bombástico. Mas naquilo que observo à minha volta, isto não é assim tão óbvio. Vejo muita gente a queixar de trabalhar demais, mas não vejo as pessoas a fazerem algo para mudarem isso. Ou então, vejo pessoas a ficarem mais produtivas, e como tal, a trabalharem ainda mais!?. É a velha história: se eu já consigo correr bem os 10.000 metros vou tentar a maratona. Ou então não…Está nas vossas mãos.

4 Comments

  1. Eu costumo usar uma expressão que resume o que disseste: “Eu trabalho para viver, não vivo para trabalhar!”.
    Acho que é uma questão de mentalidade, se uma pessoa trabalha efectivamente 8 horas num dia (sem as constantes pausas para fumar, cafezinho, etc), então a pessoa produziu e foi produtiva, o arrastar do horário de trabalho provoca improdutividade.
    Quanto trabalhar ao fim-de-semana, algo muito comum na área informática, também não o faço a não ser numa situação excepcionalíssima, porque a minha sanidade mental depende dos meus momentos de lazer, e quem não pensar assim já chegou à fase de insano.

  2. Arzebiu says:

    Artigo muito interessante e com o qual me revejo. Só te faltou falar num caso: aqueles que passam muitas horas na empresa mas que de facto não produzem. Que parece que andam sempre aterefados e ficam até tarde na empresa porque parece bem, mas que entram tarde e têm N intervalos de 1h para café. É um exagero, mas não deixa de servir a muitas pessoas que conheço do nosso ramo.

  3. Alves says:

    Arzebiu, de facto escapou-me esse tipo de pessoas. E também tive a infelicidade de conhecer algumas…

  4. MM says:

    Gostei deste post. Não é por trabalhar mais horas por dia que aumento a produtividade… Para melhorar a minha situação tentei fazer o seguinte ao longo dos anos que tenho de trabalho: reduzir as distracções (email, cafes, paleio, noticias, etc), automatizar algumas tarefas, fazer código re-utilizável de forma a usar em projectos seguintes, etc. etc. Ao fim deste tempo de trabalho posso dizer que consigo fazer mais e melhor em menos tempo… sinceramente até me sobra tempo, no entanto não vou a correr dizer ao gestor que já fiz as minhas tarefas (ainda me acusam de estimar mal os tempos), procuro usar o pouco tempo livre para melhorar a forma de escrever código, melhores padrões, novas ferramentas, até testar melhor o que fiz.
    Também procuro sensibilizar os gestores/clientes para evitar interrupções para reuniões, emails com bugs, novos pedidos, etc. Quando estou a programar consigo ser muito eficiente se não tiver interrupções; noutras profissões mais maduras que exigem grande criatividade e produção mental não acredito que existam tantas interrupções como no caso dos programadores informáticos… é impossível exercer uma actividade mental sendo constantemente interrompido.
    Penso que com algum esforço conseguimos ser mais competitivos sem destruir a vida pessoal, espero com isto que os próximos desafios sejam menos difíceis e que consiga produzir software de qualidade…

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