Este país à beira mar plantado

Fred Oliveira escreve um interessante artigo sobre as dificuldades que a localização geográfica pode trazer a uma empresa que pretende vingar no mercado global. Segundo ele, mesmo com a Internet a dissipar fronteiras, a localização continua a desempenhar um papel importante no sucesso das empresas:

Here’s where location impacts your chances for success: location dictates the likelihood that you’ll be able to exchange ideas with likeminded individuals; it affects your ability to raise funding should you need it at some point in your venture; it affects how easily people will discover your product, interact with it or start adopting it; it affects how media (whatever media that might be) see you and your company.

Esta é uma questão recorrente quando se fala de empreendedorismo em Portugal – quão desvantajoso é, para alguém que quer criar uma empresa, ficar em Portugal? Normalmente, a questão gira à volta da carga fiscal e das (pouco flexíveis) leis do trabalho. Por vezes também gira à volta das dificuldades no financiamento. Mas o problema da percepção que o mercado (clientes e media) tem do nosso país não costuma ser referido, e merece reflexão. A verdade é que, mesmo em áreas de negócio fora da Web, a localização não impediu empresas portuguesas de se afirmarem lá fora. Veja-se o exemplo da Nelo Kayaks, líder mundial no fabrico de canoagem de alta-competição. Claro que, exceptuando talvez o turismo, a marca “Portugal” não é propriamente conhecida no mundo, e iniciativas como o About Portugal da AICEP são importantes para avançarmos nesse sentido e facilitar a vida às empresas portuguesas.

Mas na área do software, tirando o desenvolvimento à medida ou a consultoria que são, por definição, mais “locais”, a minha percepção (como cliente) não coincide com a do Fred (como fornecedor). Embora tenha curiosidade em saber onde estão localizadas as empresas que desenvolvem o software que compro/utilizo, isso não influencia minimamente a minha decisão. E acredito que muita gente não faça ideia onde foi desenvolvido o software que utiliza. Talvez os americanos não pensem assim. Mas então como explicar o sucesso de empresas como a JetBrains, que da República Checa destronou a Borland do posto de líder em editores para programação em Java?  Ou da Balsamiq, que está a conquistar o mercado das ferramentas de mockups a partir de Itália? Os media tradicionais (incluo aqui o techcrunch, mashable e afins) dão mais ênfase às empresas americanas? Sem dúvida, mas não foi certamente através desses media que eu descobri a maioria das aplicações que utilizo. O passa-palavra típico dos blogs e das redes sociais rapidamente atravessa fronteiras e pode ter um poder influenciador muito mais forte do que os media tradicionais.

De qualquer forma, o artigo termina com uma mensagem positiva, mas não deixa de ser um assunto digno de reflexão e do qual pouco se fala, talvez por também não haver muitas empresas portugueses a (arriscar?) desenvolver software à escala global.

1 Comment

  1. Henrique says:

    Realmente é uma questão interessante, e penso que tanto tu como o Fred tem as suas razões.
    Mas penso que nesta era, nesta era de WEB, global, a localização fisica não é assim tão importante… O importante é ter uma produto de qualidade, um produto que se destaque no meio da “multidão”.. pois os grandes meios de comunicação de hoje em dia são iguais para todos e todos têm acesso a eles.

    Nós que estamos aqui, no outro lado do atlântico, ou melhor, nós estamos mesmo no centro do planeta, entre os EUA e a China, temos é que usar a imaginação e criatividade para sermos ouvidos e para chegarmos onde os outros chegam…

    É claro, que fica sempre bem ir a umas conferências e afins aos sitios certos, claro, EUA, London, etc… Mas penso que se deve fazer isso como uma espécie de visita ao cliente, pois o principal é mesmo a qualidade do nosso produto…. penso eu.. :)

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