Há quem diga que o importante é percorrer o caminho. Assim aprendemos com os nossos erros e não com os erros dos outros, que como todos sabemos desde tenra idade, é a forma mais eficaz de aprendizagem. Eu também acredito nisso, mas é preciso mais do que percorrer o caminho. É preciso deixar marcas que resistam à passagem do tempo.
Nos tempos que correm, a palavra “carreira” ganhou uma importância desmedida. Toda a gente quer fazer carreira. Toda a gente quer ter um currículo recheado de títulos, de preferência envolvendo palavras como “responsável de” ou “director”. Do que tenho visto, essa importância deriva de duas motivações diferentes, consoante a personalidade das pessoas. Por um lado, existe a motivação financeira – ao subir na carreira ganha-se mais (pior, a única maneira de ganhar mais é subindo na carreira). Por outro lado, existe o factor de realização pessoal – as pessoas sentem o seu trabalho reconhecido através de promoções. Tudo isto é legítimo, mas até que que ponto não será superficial?
Acredito que todos temos um papel no mundo. Esse papel consiste em utilizar as nossas capacidades únicas (que todos temos) para produzir algo que extravase as nossas necessidades individuais, colmatando necessidades de outros. Se eu sou muito bom a produzir batatas, faz sentido que eu produza mais do que preciso para a minha alimentação, vendendo essas batatas a quem não é bom a produzir batatas (mas é bom a produzir outras coisas). Penso que isto é óbvio para a maioria das pessoas. Nesse sentido, até que ponto uma carreira ou um cargo extravasam a nossa necessidade individual?
No desenvolvimento de software utiliza-se o termo deliverable para definir algo, tangível ou não, que entregamos ao cliente e que ele valoriza – pode ser uma aplicação, um documento de análise, uma acção de formação, etc. Ao pensarmos em deliverables deixamos de pensar em nós (como é que produzimos o deliverable, qual a tecnologia, qual a metodologia, etc.) para pensar naquilo que vai ter um impacto real e positivo no cliente. Podemos também pensar que um deliverable é aquilo que fica depois de terminarmos o trabalho. Independentemente de termos feito noitadas para cumprir prazos, termos tido azares pelo caminho, termos aprendido coisas novas, o que fica para os outros resume-se ao deliverable. Porque aquela foi a nossa marca no mundo. Pode ter sido pequena, mas ficou lá e nós continuámos.
Eu acho que devíamos substituir a “carreira” por sequência de deliverables. Quais foram as nossas marcas no mundo? O que é que produzimos realmente? O que é que melhorámos de forma definitiva? Que conhecimento ou capacidade partilhámos de forma indelével, de tal forma que podíamos mudar-nos para uma ilha deserta mas o seu efeito continuava a fazer sentir-se?
Porque a vida é etérea cabe-nos lutar contra isso. Podemos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Esta famosa expressão dá 3 exemplos de deliverables poderosíssimos. Cada um vale mais do que 50 promoções, mas não precisam de ir tão longe. Aquilo que produzem não tem que ser grandioso para sobreviver à passagem do tempo. Por exemplo, cada artigo que escrevo neste blog é uma marca que deixo no mundo. Não contribui para a minha carreira nem me dá proveitos financeiros, mas continuará cá mesmo que eu desapareça. Aliás, há cerca de dois anos decidi começar a escrever um blog porque me dei conta que consumia imensos blogs satisfazendo a minha necessidade pessoal mas não extravasava isso para os outros. Claro que profissionalmente me esforço por desenvolver aplicações que têm impacto positivo na qualidade de vida de quem as utiliza, e gostava muito de um dia vir a dar aulas – pois passar conhecimento é sem dúvida o derradeiro e mais nobre deliverable! Tal como estes, existem inúmeros exemplos. E vocês, quais são os vossos deliverables?

Subscrevo mas não quero deixar de acrescentar uma nota: o caminho também é importante. Apesar de os deliverabiles representarem um valor fundamental, são, inevitavelmente, o resultado do . E o caminho, esse, tal como me disse alguém há já algum tempo, faz-se caminhado. Just a thought — Miguel
É uma discussão interessante essa. Os fins são o mais importante ou os meios ? Será que algo do que fazemos vai ficar aqui para a posteridade ? Pessoalmente não acho que posts de um blog fiquem (contra mim falo) numa arquitectura tão dinâmica como a internet.
Por outro lado, o exemplo do futebol é bom. No final, quem marcou é quem ganha e não quem jogou melhor. Mas será só isso ?
@desfocado: a analogia do futebol parece descabida à partida, porque desumaniza quem alcança os objectivos e glorifica os objectivos em si. É nesse aspecto que o caminho demonstra o seu interesse. É no caminho que alguém se valoriza, que aprende, que se torna em alguém melhor do que era até então. Os deliverables não são senão milestones visíveis desse desenvolvimento pessoal que transbordam da pessoa para a sociedade.
Mas de outra perspectiva, o que é um indivíduo que não tem nenhuma contribuição visível na sociedade em toda a sua vida? A sua vida não tem (argumentavelmente) menos valor do que qualquer outra, contudo se ele e o mundo permanecem isolados um do outro, o seu desenvolvimento pessoal é necessariamente limitado e, mesmo que não o fosse, a sociedade em nada beneficia com ele. E aí são os golos que contam. Daqui a um século apenas alguns de nós estarão nos livros de história. Mas bastantes mais do que apenas esses terão feito algo visível, ainda que não reconhecidamente. É aí que está o valor social de uma vida humana, mesmo postumamente.
Na questão colocada “Os fins são o mais importante ou os meios?”, acho que nem fins nem meios são conceitos que façam sentido ao nível social. Qual é a finalidade da sociedade? E, se conseguíssemos responder a isso, quais seriam os seus meios para os atingir? O indivíduo tem objectivos e tem trajectos. A sociedade evolui silenciosamente, empurrada e arrastada pelas escolhas dos indivíduos.