Mestres da guerra

Uma das minhas leituras de férias foi o excelente Patton, Montgomery, Rommel: Masters of War (“Senhores das Batalhas”, em português). O livro detalha de forma bastante exaustiva o papel que os três grandes generais das principais forças em conflito (Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos) tiveram na segunda guerra mundial, nomedamente nas batalhas do norte de África, Itália, desembarque na Normandia e o avanço final para a Alemanha.


Os generais da segunda guerra mundial

Erwin Rommel começou por ter um papel importantíssimo na invasão da França em 1939, utilizando uma técnica que aperfeiçoou até à quase perfeição: a Blitzkrieg, que consiste em concentrar o ataque numa força que que se movimenta muito rapidamente e em profundidade (de tal forma, que muitas vezes acaba por atacar o inimigo por trás!). Era tal fanático desta técnica que, mesmo quando ordens superiores lhe diziam para parar, ele ignorava-as e avançava intrépido surpreendendo e rompendo literalmente pelo inimigo adentro. Voltou a usar esta técnica com grande sucesso no Norte de África onde, mesmo em inferioridade numérica e com tanques e apoio aéreo mais fracos, conseguiu em 3 semanas retomar o controlo da Líbia. Teria chegado ao canal do Suez (uma conquista que poderia ter sido crucial no desfecho da guerra) se não tivesse esbarrado no bilhante general inglês Bernard Montgomery.

Bernard Montgomery era, ao contrário de Rommel, muito cauteloso e só avançava após ter acumulado uma força esmagadora de efectivos e abastecimentos que geria com uma capacidade logística extraordinária. Essa abordagem podia implicar ter tropas paradas durante um mês ou mais mas quando avançava levava tudo atrás como se fosse um tsunami. Durante o período de paragem, treinava intensamente as suas tropas simulando o mais realisticamente possível o cenário que iriam encontrar. Por exemplo, a primeira coisa que fez quando assumiu o comando do 12º Corpo do exército (que segundo ele estava muito à vontade) foi introduzir corridas de corta-mato regulares para todos, incluindo oficiais. Alguns destes últimos queixaram-se que, atendendo à sua ideia e peso, o exercício poderia ser fatal. Montgomery respondeu que era por isso mesmo que deveriam correr e morrer, a fim de que os pudesse substituir mais cedo.

Por último, o general norte-americano George Patton só apareceu mais tarde mas teve um papel crucial no avanço para a Alemanha após o desembarque na Normandia, em 1944. Patton era muito parecido com Rommel e gostava igualmente de utilizar a Blitzkrieg. Aliás, as suas ordens foram muito similares às de Rommel quando invadiu a França. Disse-lhes que avançassem sempre e ignorassem os flancos. Não queria receber relatórios a informá-lo quais as posições que estavam a ser mantidas: “Avançamos constantemente e a única coisa que nos interessa manter é a proximidade ao inimigo“. Chegou a ultrapassar as tropas alemãs que retiravam rapidamente para a Alemanha.

Além da estratégia utilizada, os três partilhavam um carisma fortíssimo e eram admirados (quase venerados) pelas suas tropas. Todos tinham estudado um livro clássico de estratégia militar de Von Clausewitz, segundo o qual o resultado de qualquer conflito é determinado pela razão entre “meios” e “vontade de lutar” em cada lado. Uma vez que não tinham grande controlo sobre os meios (o número de soldados e tanques não era algo que conseguissem manipular) aperfeiçoaram ao máximo a capacidade de incutir nas suas tropas a tal “vontade de lutar”. Por exemplo, ao contrário do que era costume na altura, todos eles circulavam pelo meio das tropas durante os treinos e durante as batalhas. Davam o exemplo em vez de mandarem fazer – em muitas investidas de alto risco, eles próprios iam no pelotão da frente. Conduziam frequentemente palestras motivacionais para as suas tropas nas quais afirmavam com tal veemência que iam ganhar a batalha que todos os soldados acreditavam fervorosamente na vitória e nem equacionavam a hipótese de derrota (e muito menos de retirada ou desistência). Até a maneira como apareciam fazia parte dessa motivação: Montgomery mandou instalar uma luz colorida no tecto do seu carro, para que todos o vissem nos exercícios nocturnos.


Os generais da tecnologia

Ainda que não dê grande valor ao paralelismo recorrente entre estratégia militar e estratégia empresarial nem ande para aí a citar exemplos da “Arte da guerra” para justificar o comportamento de mercados competitivos, não pude deixar de reparar nas reminiscências entre Rommel, Montgomery e Patton com alguns líderes de empresas tecnológicas.

Por exemplo, a estratégia Montgomery de acumular tropas durante grande períodos de tempo enquanto as treina intensamente para o combate faz-me lembrar claramente Steve Jobs. A Apple lança novos produtos muito ocasionalmente mas quando sai um novo produto está extremamente bem equipado (em tecnologia, design, funcionalidades, robustez, etc.) varrendo avassaladoramente o mercado respectivo. Durante esses longos períodos, essas equipas ensaiam novas funcionalidades, alheando-se quase por completo ao “avanço” das restantes empresas. É um risco que correm mas a verdade é que, tipicamente, quando os concorrentes estão prestes a furar a Apple, esta lança nova investida que os volta a colocar muito à frente no mercado.

A estratégia inversa (Blitzkrieg) de avançar rapidamente sem parar sequer para perceber o que se passa à volta lembra-me um líder menos conhecido: Loic Le Meur. Para quem não sabe, ele é o fundador e CEO do Seesmic, um agregador de feeds de diversas aplicações sociais como o Twitter e o Facebook. Já acompanho a evolução do Seesmic há algum tempo (continua a ser a minha aplicação de twitter no android) e fico pasmado com a velocidade estonteante com que uma pequena equipa (42 neste momento, segundo o linkedin) produz novos clientes de Seesmic e novas funcionalidades todos os meses. Embora inicialmente o Seesmic tivesse sido pensado como um serviço de partilha de vídeos tornou-se entretando (Março de 2009) um cliente desktop de Twitter e Facebook. Poucos meses depois lançou a versão Web, ao que se seguiu a versão Desktop em Silverlight, uma versão para Blackberry, outra para iPhone, outra para Android…tudo isto enquanto adicionava novas funcionalidades como geolocalização, pesquisa, múltiplas contas, google buzz, etc. Se esta estratégia irá dar frutos, só o futuro o dirá, pois até agora a empresa tem-se aguentado à conta de capital de risco e, tanto quanto sei, (ainda) não é rentável.


Conclusões

Olhando só para os aliados, temos dois generais com visões opostas que se completaram para levar a cabo a derrota dos alemães. Por um lado, só a capacidade de planeamento de Montgomery poderia garantir que o desembarque na Normandia tivesse sucesso. A complexidade logística de desembarcar centenas de milhares de tropas nas praias, em conjunto com o respectivo equipamento e abastecimentos é algo que exige meses de preparação prévia. Uma vez em terra, o avanço até à Alemanha queria-se rápido e fulminante, para não dar tempo às tropas alemãs para se reorganizarem. Aí, o papel do intrépido e impaciente Patton foi fulcral.

Situações diferentes exigem estratégias diferentes e, se quisermos tirar alguma lição para a estratégia empresarial, diria que as empresas com os dois tipos de liderança e que saibam usar a liderança certa no momento certo, terão mais hipóteses de sucesso.